Quando iniciei as minhas lides por estas andanças, e não foi assim há tantos anos quanto isso, tudo era diferente, não necessária e ou forçosamente melhor, mas diferente. Era a pequenota de um sítio com colegas mais maduros, mais velhos, com uma vida inteira de experiências interessantíssimas da profissão, com estórias inesquecíveis, "mestres" com quem podíamos discutir tudo e a todo o tempo, com gosto, com orgulho, com "gozo", com prazer, com processos aos quais íamos beber todo o direito que era necessário aprender, toda a sensibilidade que era necessário compreender, todo o início da vida profissional que havíamos escolhido, sem ter qualquer noção das consequências da escolha que fizeramos.
A maioria destes colegas, com quem tive o privilégio de aprender a advogar (porque foi com todos eles que aprendi, embora, sobretudo, o tenha feito com uma pessoa muito especial: o meu pai), são hoje referências para mim, não apenas no que concerne à profissão, mas também no que respeita à vida, à nossa postura no mundo profissional, à nossa posição na sociedade em que vivemos.
Então, compreendia-se o que era o espírito de sacrifício, quando era necessário e porquê e isso não constituia qualquer drama para ninguém. Então, cada um merecia respeito pelo trabalho desenvolvido e era valorizado por aquilo que era. Então, éramos uma família, com as suas birras, com as suas contingências, com tudo aquilo de que uma família de afectos (como eu tanto gosto de dizer à laia de frase feita) é composta.
Naturalmente que com o correr da pena da vida, com as alterações que o mundo de hoje tem vindo a conhecer, tão rápidas e em número tão elevado, quase inatingíveis na perspectiva do que é humanamente possível, do que é razoável em termos de capacidade de assimilação por parte de um ser humano, de objecto de síntese e aplicação correcta aos casos que nos vão passando pelas mãos, a advocacia não pode deixar de ser diferente.
Ela existe para quem precisa e quem precisa dela necessita de uma advocacia que compreenda os dias de hoje, os problemas de hoje, as necessidades e exigências de hoje. E os dias de hoje impõem uma capacidade de resposta e de organização que a sustente que não se coaduna com a advocacia de antanho.
Mas isto não quer dizer que a advocacia que se foi construindo nos últimos anos seja a mais adequada para dar resposta a esta revolução de todo o naipe de matérias e áreas da vida. Há coisas que se ganharam com as novas formas de organizar o exercício da profissão, mas outras há que se perderam pelo caminho e que temos de começar a pensar em ir recuperar, pois elas são essenciais ao bom e digno desempenho da nossa profissão.
Coisas tão simples quanto o bom senso, o equilíbrio, a procura de soluções conjugadas e harmoniosas, a consideração dos interesses dos vários intervenientes do mundo jurídico, a compreensão das novas necessidades de quem precisa de nós, a valorização indiscutível do capital humano - desse bem tão precioso - devem levar-nos a repensar a nossa profissão, em termos organizacionais (as estruturas demasiado pesadas passam a viver apenas para elas próprias e já não para as pessoas), em termos de conhecimentos (que têm necessariamente de ser transversais e não perfeitamente compartimentados, embora com a noção de que hoje é impossível saber de tudo com os mesmos rigor e profundidade), em termos até do que é, hoje, este verdadeiro serviço público tão incompreendido: a advocacia.
Vamos repensar a nossa profissão?
Este texto é uma homenagem ao meu pai, um homem extraordinário!